Esta Coleção resulta da ação de recolha, acondicionamento e salvaguarda que Carlos Rocha (1943-2016) teve durante a vida com o objetivo de reunir, num só arquivo, a sua prática profissional na MARCA e na LETRA, juntamente com o legado do seu pai, Carlos Rocha Pereira (1912-1992) e do seu tio, José Rocha (1907-1982), no pioneiro Estúdio Técnico de Publicidade (ETP), fundado por este último em 1936, em Lisboa. Mais do que ter um propósito colecionista, a motivação de Carlos Rocha foi reunir documentação e informação substantiva sobre a prática profissional de designer ao longo do século XX em Portugal. Esta ação, tal como a decisão de confiar este material à guarda do MUDE, revelam a forma como entendeu e exerceu a sua vocação de designer, com uma responsabilidade ética e social, uma visão da ação coletiva e da importância do associativismo de classe, um apreço pela prática pedagógica e uma consciência do valor do trabalho museológico.
Este arquivo tem um especial valor para a prossecução da missão do MUDE enquanto museu das várias expressões do design e para o conhecimento da cultura visual durante os últimos 100 anos. A sua extensão cronológica, os autores representados, o significado da documentação para a história da publicidade em Portugal, e a diversidade de materiais de comunicação — do selo postal aos painéis de estaleiro — permitem desenvolver um trabalho de conservação, exposição, estudo e divulgação do design gráfico no país, desde os primórdios do desenvolvimento da publicidade, sublinhando o significado que teve em termos socioculturais e económicos.
José Rocha, Carlos Rocha Pereira e Carlos Rocha, juntamente com os muitos profissionais que com eles colaboraram, conceberam a imagem e a comunicação para importantes setores da economia portuguesa, como a alimentação, a banca, os combustíveis, a energia, a eletricidade, os transportes, as telecomunicações, o turismo, os seguros, a saúde e o vinho, este último com especial representação nesta Coleção. Para além disso, estas duas gerações de designers contribuíram também muito significativamente para a comunicação do Estado. Analisar cada proposta no seu contexto é compreender a evolução dos hábitos domésticos, a transformação das mentalidades e a mudança de comportamentos desde o início da Primeira República até à atualidade, com informações especialmente relevantes sobre o período do Estado Novo.
O valor deste arquivo é também demonstrado pela rápida identificação e reconhecimento que se estabelece, uma vez que muitos produtos, slogans e imagens fizeram (e fazem) parte do quotidiano de diferentes gerações e famílias. A multiplicidade dos suportes gráficos (anúncios, capas de livros, cartazes, embalagens, estacionários, folhetos, logótipos, montras, panos de cena para os cinemas, pavilhões ou rótulos), e o facto de muitos estarem representados através de esquissos, estudos, maquetas, artes finais e provas de impressão, permite ainda compreender o design como disciplina de projeto, sobretudo antes da utilização de meios digitais, para além de constituir um recurso inesgotável para futuras investigações em múltiplas áreas disciplinares.
Mais informação no livro ACERVO MUDE – Várias Expressões do Design